Tal como no artigo que escrevi aqui no blog da Nefasto há uns meses, este artigo que escrevo agora foi motivado por algo que li no suplemento Ípsilon, do Público.
Basicamente, tudo começou com uma entrevista de António Pedro Vasconcelos acerca do seu mais recente filme “A Bela e o Paparazzo”. Em resposta a esta, na semana seguinte e no mesmo suplemento, o crítico de cinema Vasco Câmara depois de ter visto o filme e de ter lido essa entrevista, decidiu dar a sua opinião não só na forma de estrelas (neste caso mais na forma de bola…), mas também com uma crónica.
Mais uma semana passada e António Pedro Vasconcelos, claramente afectado pela acidez das críticas, decide escrever no mesmo espaço onde Vasco Câmara se expressou uma reacção ao que leu na semana anterior.
A primeira impressão que fica é que isto não passa de uma guerra de palavras mesquinha entre um crítico amargo e um realizador ofendido, mas ao ler com atenção os três artigos transparece algo mais. Por baixo desta camada egoísta e superficial estão questões que ambos tocaram e que, na minha humilde opinião, são relevantes para todos os que se interessam por cinema. Por isso, e mesmo sabendo que a minha visão vale tanto como qualquer outra, decidi também meter a colher nesta sopa de letras que já começa a azedar.

A ENTREVISTA

É aqui que a telenovela começa… No Ípsilon de 29 de Janeiro, António Pedro Vasconcelos é entrevistado a propósito do seu novo filme “A Bela e o Paparazzo”.
Ora, sendo eu um fraco conhecedor da obra completa deste realizador, vou parecer muito parcial e a minha opinião muito dúbia, mas falarei apenas do que conheço.
Primeiramente, e até ao fim da entrevista, ele consegue em quase todos os parágrafos introduzir nomes de realizadores ou outros artistas[1. Chaplin, Frank Capra, Shakespear, Molière, Howard Hawks, Billy Wilder, De Sicca, Jean Renoir, Arthur Duarte, António Silva, Leo McCarey, Ernst Lubitsch, Peter Sellers, Groucho Marx, Marilyn Monroe, Kim Novak, Alfred Hitchcock, António Ferro, Godard, Chabrol, Truffaut, Stravinsky, Bach, Pergolesi, Clint Eastwood, Artur Serra Araújo, João Canijo, José Fonseca e Costa, Bruno de Almeida, Rosselini, Scorcese, Spielberg, Paul Thomas Anderson, Ford, Haydn, Rohmer], de filmes[2. A Canção de Lisboa, O Pátio das Cantigas, O Pai Tirano, Camões, Frei Luís de Sousa, Je Vous Salue Marie, Prènom: Carmen, Avatar, Titanic, Suicídio Encomendado, Mal Nascida, Ganahar a Vida, Viúva Rica Solteira Não Fica, The Lovebirds, Hard Eight] ou termos técnicos e estrangeirismos[3. timing, plateau, video system, découpage (esta repetida algumas vezes), mainstream, entertainment
Apesar de parecer um pouco mesquinho, com isto apenas quero mostrar a quantidade absurda de nomes e termos que aparecem numa entrevista de 4 páginas com imagens pelo meio. Chega-se ao fim e fica uma sopa de nomes na cabeça de quem leu, de tal maneira que já nem se sabe bem do que se estava a falar...]. Percebo que, falando de cinema, seja inevitável falar também dos seus protagonistas ou usar termos específicos desta arte, mas o que não se justifica é quando são utilizados apenas para dar ares de quem é muito viajado ou entendido nas lides do cinema. Também eu podia neste artigo já ter utilizado termos como “connoisseur“, “review” ou qualquer outro estrangeirismo; não o faço porque tenho a noção que estou a escrever para outras pessoas lerem (por muito poucas que sejam) e não apenas para mim e mais meia dúzia de outros como eu capazes de descodificar a minha mensagem e entenderem estes termos que muitas vezes parecem piadas internas apenas de quem está dentro do assunto.
A entrevista prossegue com António Pedro Vasconcelos a atingir 3 nervos que iriam ser os pilares de toda esta discussão: Jean-Luc Godard, o cinema europeu e o cinema português.

- O primeiro é acusado de ser “(…) um dos grandes responsáveis pelo estado em que isto está(…)”, ou seja, por o cinema europeu ter perdido terreno em relação ao cinema americano. Godard é ainda sentenciado de culpado por ser “(…) uma figura fascinante e brilhante, levou o cinema europeu para um determinado caminho, teve muitos seguidores, mas depois deixo-os na estrada. Porque foi incapaz de tomar o poder. E traiu toda agente. O que é feito hoje dele? Já não representa nada.”. Apesar de gostar de alguns filmes dele, não sou o fã número um de Godard, mas conheço o suficiente para saber que ele não era nenhum líder político ou religioso, muito menos o cabecilha de algum culto, como pela afirmação anterior se pode entender.
Ainda sobre este realizador, APV é relembrado pelo jornalista que conduz a entrevista de um incidente nos anos 80 em que ele saiu em defesa de Godard e do seu filme “Je Vous Salue Marie” devido ao então Presidente da Câmara de Lisboa Nuno Krus Abecassis tentar impedir a sua exibição. Hoje, responde que na altura agiu contra um ataque político patético de extrema-direita a um excelente filme, mas que a defesa e admiração acabam “A partir do momento em que o Godard entra numa fase de poesia esotérica(…)”.

-Em relação ao cinema europeu, APV referencia alguns bons momentos do cinema cómico e procede com a afirmação “O facto de a Europa ter perdido esse sentido de comédia é responsável pela nossa decadência(…)”.
De seguida, e tal com já mencionei no ponto anterior, Godard é usado até certo ponto como porta-estandarte e arauto da desgraça. Noutra resposta auto-proclama-se um dissidente do cinema europeu e afirma ser “(…)preciso vir para a rua, fazer a revolução que o neo-realismo fizera em Itália.”. Ao ter esta afirmação não consegui evitar de pensar que raio de revolução estaria ele a querer fazer ao realizar um filme que usa e abusa dos clichés de um dos géneros mais artificiais, fabricados e menos originais da indústria americana (a comédia romântica). Deve estar a aplicar a velha máxima “olha para o que digo, não olhes para o que eu faço”…
Na resposta seguinte, e para finalizar este ponto, diz outra coisa curiosamente paradoxal; ao afirmar na resposta anterior que “Avatar é um exercício de pirotecnia.” mas que “se se reduzir aquilo à história, é um conto de fadas para crianças.” (com o qual concordo plenamente), esbarra noutro ponto no qual volto a concordar: “Isso significa que contar histórias não é suficiente…”, remata o entrevistador com muita razão. APV concorda e acrescenta que “É preciso saber que histórias e como se contam. E é preciso renovar a linguagem constantemente.”. Mais uma vez não percebo como é que ele fez isso com “A Bela e o Paparazzo” (ou se o fez de todo…).

-Finalmente, sobre o cinema português APV defende a existência de uma indústria em Portugal. Este é outro termo que me faz muita confusão: indústria. Tenho a perfeita noção que, para se fazerem filmes, é preciso dinheiro e que as pessoas que trabalham neles precisam de ser pagas para poderem sobreviver. Mas para mim Cinema e indústria de cinema são dois conceitos muito diferentes: a indústria do cinema faz, tal como qualquer outro tipo de indústria, filmes em massa, para as massas, de conteúdo frágil com um embrulho bonito, com o propósito de vender um produto e obter o máximo de lucro possível (como o próprio Avatar); o Cinema (reparar no uso da letra maiúscula) é uma entidade nobre, respeitável, com valores, uma arte e uma forma de expressão, para muitos A forma de expressão. Tendo em conta estas diferenças, acho que dá para perceber perfeitamente em qual dos dois mundos se encaixa “A Bela e o Paparazzo”…
Seguidamente, APV opõe-se à ideia do cinema português como um cinema de autor, como se isso fosse uma coisa muito má, e que devemos seguir numa direcção oposta a essa. Para isso acha que a solução está no apoio estatal ao cinema. Nisso também concordo em parte. Toda a gente sabe que o estado português ajuda muito miseravelmente o cinema e a cultura em geral no nosso país e toda a gente gostaria que houvessem mais verbas disponíveis para além das que são distribuídas pelo ICAM, que ainda por cima são sujeitas a critérios de atribuição muitas vezes duvidosos. Mas o ridículo surge na seguinte afirmação: “Há em Portugal uma indústria das pescas, que também não é auto-suficiente, e que tem de ter apoio do estado.”. Ao ler esta comparação não soube se havia de rir ou chorar ou ambos… Não me interpretem mal: eu, ao contrário do público em geral, não tenho a opinião de que a cultura é supérflua, não é um bem essencial à sobrevivência e que por isso deveria vir apenas depois da economia estar em alta. Mas comparar o cinema com a indústria das pescas em termos de importância é apenas ridículo. Sugiro ao sr. António Pedro Vasconcelos, da próxima vez que lhe apetecer ir a um restaurante comer um bom marisco ou uma boa posta de salmão, que vá ver o “Marley and Me” ou o “Valentine’s Day” ao cinema…
Ainda sobre as questões de financiamento no cinema português prossegue dizendo “Há filmes que custam a cada espectador 5 mil euros. É preciso perguntar à sociedade se ela está disposta a pagar isto.”. Falamos da legalização do aborto cinematográfico, suponho… Pois bem, eu posso dar-lhe já a minha resposta: eu não dava 1 único cêntimo para financiar o seu filme. Preferia abortar do que ter um nado-morto.
Também é verdade que, se tal fosse possível, praticamente nenhum filme seria aprovado pelo público português, com a excepção de lixo como “O Crime do Padre Amaro” ou “Call Girl“.
Para rematar esta questão, APV diz ainda que é necessário “(…)impor um mainstream do cinema português. E o medo de que isso mate o cinema marginal é absurdo.”. Talvez seja verdade, mas é preciso ter em mente que aquilo a que chama de “cinema marginal” é o cinema de Manoel de Oliveira, o mais velho realizador do mundo em actividade, adorado pelo tal desgraçado cinema europeu; é o cinema de João Salaviza, um simples jovem que ganhou o prémio de melhor curta metragem no festival de Cannes. No fundo, está a falar do verdadeiro cinema português, apenas dá-lhe outro nome…
Mais à frente afirma ainda que o cinema “(…)é uma arte popular, é uma indústria do entertainment, e foi por aí que se fez a sua história.”. Custa-me sempre ouvir um realizador dizer que o cinema é entertainment, não porque não ache que também o seja, mas porque acho uma visão muito redutora de um mundo tão vasto, por uma pessoa que supostamente vive e trabalha nele. Quando quero também vejo um filme em que o principal propósito é entreter, mas maioritariamente vejo um filme porque quero ouvir uma história que nunca ninguém contou e que eu nunca imaginei, quero ser seduzido por essa história e pelos seus protagonistas, quero ter emoções em relação a ela. E, que eu me lembre, a história do Cinema ficou marcada por filmes como “O Padrinho“, “Taxi Driver” e “2001 Odisseia No Espaço“, não pelos filmes que passam na TVI ao Sábado à tarde. Se estivermos a falar de sucesso de bilheteiras, aí sim, esses filmes, tal como “Titanic” e “Avatar” são campeões indiscutíveis.

No fim de ler esta entrevista e de ler a crónica de Vasco Câmara em resposta a ela, percebi a necessidade deste último em fazê-lo, necessidade essa que partilho e transpareço escrevendo este artigo.
Não vou comentar a crónica de VC porque acho que já escrevi demais e não me quero alongar mais neste assunto, mas convido os interessados a ler os três artigos na íntegra.
Quanto à resposta final de APV só tenho a dizer que demonstrou ainda mais o seu carácter pretensioso, tratando o crítico (que não fez mais do que o seu trabalho: comentar, criticar, dar a sua opinião) de forma paternalista e arrogante (”felizmente para mim, infelizmente para ele, os meus filmes têm-se mostrado imunes à sua opinião, o que me desgosta mais por ele do que por mim”), atirando ao ar teorias freudianas ridículas de patricídio (”Mesmo que VC declare que não tem uma relação de fidelidade incondicional com o Mestre, há aqui um ressentimento freudiano: ele sente que eu matei o Pai!”) e acusando-o de ser “(…)movido por razões pessoais e por um estranho e doentio espírito de rèvanche.”. Mascara ainda o seu orgulho ferido com a desculpa esfarrapada de que decidiu escrever esta resposta como defesa das pessoas que trabalham com ele nos seus filmes. Primeiro com Godard à mais de 20 anos atrás, agora com os seus colaboradores, António Pedro Vasconcelos saiu da cadeira de realizador para se tornar num verdadeiro knight in shining armor… (achei bem terminar à moda de AVP: com um estrangeirismo. Fica sempre bem.).