Possuímos a estranha necessidade de associar a tudo um início, uma data, um evento causador. Desconhecemos, ou ignoramos apenas, que há certas coisas para as quais simplesmente não houve um início. Sempre estiveram lá, sem que as soubesses agarrar (esmagar de encontro ao peito), e só encontras depois. Atribuis-lhe uma data, mas esse não foi o seu início, foi meramente o dia em que te deste conta. Um dia relembras essa data e dizes, Faz hoje dez quinze vinte anos, mas a verdade é que não tem idade – nunca teve.
É só.
Set 29
Um homem, dono de um bar com nome de homem, falava-me no outro dia de como a sua geração foi em tudo superior à actual, na qual julgo, até certo ponto, estar incluído. Dizia-me de como, nos idos tempos em que fora jovem, não havia escolha nem fartura, e que cada um se virava para onde podia (invariavelmente, haveriam de se dar bem).
Não o nego, nem pretendo sequer discutir qualquer uma das suas afirmações. Mas ouvir o homem falar, no seu tom acusador, sobre como as actuais gerações têm de tudo a mais, causou-me uma certa comichão. Talvez por perceber claramente que o homem ignorava que qualquer geração é o reflexo da anterior (é até, por vezes, um sub-produto dela). Se esta geração tem a mais de tudo, e ainda carrega orgulhosa a infeliz bandeira da rebeldia, é a anterior que devemos culpar, por colocar nas mãos de uma criança inconsciente produtos de uma sociedade consumista e capitalista, que os compatriotas do seu tempo heroicamente construíram para nós.
Nada disto disse ao homem, e aceitei a superioridade dos do seu tempo, pensando, para mim, que a geração anterior havia feito um belíssimo trabalho.
Set 15