O Pedro, grande companheiro de noitadas perdidas enterrados em trabalho (muito dele quase inútil), ofereceu-me isto, fazendo-me sentir mal por não lhe poder retribuir minimamente o favor. Obrigado, camarada!
Ago 30
Aproveitando o final dos Jogos Olímpicos mais hipócritas e dictatoriais de todos os tempos, gostaria de chamar a atenção para a pequena maravilha acima, o logótipo escolhido para representar os Jogos de Londres, em 2012. Ao que parece, custou uns meros 500.600€, e orgulha-se de ostentar o ano de realização dos jogos num estilo (no mínimo) muito peculiar, e em cores facilmente associáveis à cidade de Londres. Muito provavelmente, o trabalho ao mesmo tempo mais bem pago e mais vomitante (passo a expressão) que vi, desde que me lembro. A boa notícia é que, daqui por quatro anos, nos vai entrar pelos olhos adentro milhares de vezes por dia. Obrigado, Wolff Olins!
Ago 25
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…O porvir…
Sim, o porvir…
Álvaro de Campos
Ago 24
ANIVERSÁRIO
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado—,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…
Álvaro de Campos
será(s) sempre…
Ago 21
Aos vinte e um dias do mês de Agosto, vinte e um anos sobre a data do meu nascimento, relembro o vigésimo primeiro excerto do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares:
21.
Haja ou não deuses, deles somos servos.
Ago 21

Ora bem, tendo em conta a “way” dos jovens adolescentes dos nossos tempos e brincando, também, com o “próspero abuso da psicologia”, tenho a dizer que, se até agora se notou um exponencial aumento de miúdos “hiperactivos”, ou, conforme a personagem da série líder de audiências com a qual mais se identificavam, “depressivos”, com a concorrência “rebelde way” a chegar vamos ter que começar a contabilizar a quantidade de miúdos “esquizofrénicos” e “bipolares”, também… Com tanta informação a entrar-lhes pelo cérebro adentro ao mesmo tempo…
É, de facto, assustador!!! Não??
Ago 02